Vejo na janela o reflexo da sala vazia enquanto oiço passos que se encaminham para a porta. Apercebo-me que ironicamente fiquei sozinha na sala. Um sorriso desenha-se nos meus lábios. Começo a imaginar a sequência dos acontecimentos que se seguem. Rio-me face à minha veia de “vidente”. Já me habituei aos novelos de pensamentos que se desenrolam em questões de segundos. Sei que possuo um tanto de inteligência que me permite estabelecer relações de causa-efeito que ainda nem sequer aconteceram, mas que se tornam tão óbvias aos meus olhos, que a sua piada reside em acontecerem de facto, e eu, menina ingénua, subo uma vez mais ao palco para desempenhar o meu papel. Somos todos uns actores no palco da vida. A maior parte limita-se é a improvisar. Eu cá prefiro fingir que improviso.
De casaco vestido, cachecol enrolado ao pescoço, procuro o anfitrião para lhe agradecer a cortesia do jantar tão delicioso e do after que se seguiu na varandinha tão acolhedora. Surpreendentemente encontro-o na dispensa obviamente à procura de algo e estranhamente de luz apagada. Tive que me conter para não desatar naquele preciso momento às gargalhadas, duma forma tenho que admitir compulsiva e extravagante, tão típica de mim! Oh vá lá! Será que ele pensa mesmo que eu sou estúpida? O interruptor da luz está mesmo ao lado da porta! Ahahah veio-me agora uma ideia relâmpago absolutamente fenomenal! Podia ter ligado a luz e desejado boa noite! Adorava ver a reacção dele! Um plano tão bem elaborado desfeito num acto tão simples e tão eficaz! Odeio, no calor do momento, não ter ideias tão simplistas!
Mas continuando o meu relato. Assim que me aproximo da porta da dispensa, olho para ele, bem olhos nos olhos fingindo aquele ar de apreensão de quem não sabe qual o desfecho da noite. E ele com os olhinhos a brilhar, tal e qual cachorrito abandonado ainda me dá aquele sorriso, e digo aquele, porque é o já tão bem conhecido sorriso inocente de “dá-me um beijo miúda, em memória dos bons velhos tempos que achas?”, e eu aproximo-me calmamente, compactuando com a sua fantasia momentânea, para logo a seguir lhe espetar um beijo seco na bochecha e atirar um xau para o ar.
E tudo isto porquê?
Será que cada vez mais a previsibilidade se apresenta nua aos meus olhos? Ou sou eu, que com a minha cabecinha imagino toda uma história, e faço-me acreditar que vai realmente acontecer, quando no fundo, sou eu que faço por que ela aconteça?
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